A Polícia Federal (PF) instaurou uma investigação para apurar a prática de uma possível “maquiagem contábil” realizada pela diretoria da rede varejista Casas Bahia. A apuração busca esclarecer se a gigante do setor alterou dados financeiros de suas operações para reduzir ou zerar o pagamento de bônus e premiações devidos aos gerentes de suas filiais, informa Manoela Alcântara, do Metrópoles.
O foco central das diligências recai sobre o sistema de metas da companhia, estrutura que utiliza o faturamento bruto das unidades físicas como métrica essencial para o cálculo da remuneração variável dos empregados.
Os indícios que fundamentam a suspeita inicial apontam que a varejista pode ter omitido deliberadamente os juros decorrentes das vendas parceladas dos relatórios oficiais de desempenho. Com essa manobra, a empresa contabilizava exclusivamente o “valor à vista” das mercadorias comercializadas aos clientes.
De acordo com os investigadores envolvidos no caso, os trabalhos devem avançar sobre a maneira como a empresa teria manipulado sua própria infraestrutura de tecnologia da informação para gerar relatórios fiscais e operacionais que não refletiam o faturamento real obtido nas negociações.
Entre os programas de gestão sob varredura técnica, destacam-se o PRWEB e o Looqbox, plataformas digitais empregadas no monitoramento diário de metas relacionadas a linhas de produtos mercantis, móveis, contratação de serviços e concessão de crédito próprio. A hipótese trabalhada é que tais sistemas foram programados para expurgar juros e encargos do crediário, diminuindo artificialmente a base de cálculo das gratificações dos gestores de loja.
Para consubstanciar o inquérito, os agentes federais já reuniram um acervo documental relevante. Há múltiplos depoimentos de gerentes que confirmam o não recebimento integral das gratificações contratuais. Quando os trabalhadores questionavam a diretoria sobre o desconto dos encargos, a empresa alegava formalmente que os juros cobrados nos carnês pertenciam a instituições bancárias parceiras, e não à rede.
Contudo, a Polícia Federal obteve ofícios do Banco Central e do Bradesco que desmentem a tese apresentada pela Casas Bahia. Os documentos oficiais indicam que a própria rede de lojas detinha a responsabilidade direta pelas operações de financiamento, e que o acordo mantido com a instituição financeira privada não cobria o crediário próprio operado por meio de carnês.
A partir dessas divergências, a Polícia Federal apura o cometimento dos crimes de fraude e falsificação. A corporação analisa ainda se a prática teve caráter sistêmico e alcance nacional, tendo em vista que os softwares investigados são adotados de forma padronizada em filiais de diversas regiões do país.
Crise financeira e demissões suspensas
A apuração criminal ocorre em um momento crítico para a saúde financeiro-corporativa da varejista. A Casas Bahia acumula um endividamento total estimado em R$ 17,3 bilhões e busca a aprovação de um plano de reestruturação no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), onde protocolou pedido de recuperação judicial.
O plano apresentado à Justiça prevê o encerramento definitivo das atividades de 298 lojas físicas — das quais cerca de 300 já haviam sido fechadas até agosto —, além do desligamento em massa de 1,9 mil a 3 mil colaboradores.
Atualmente, a empresa opera sob proteção temporária contra execuções de credores enquanto aguarda a tramitação do processo de recuperação judicial. Paralelamente, em decisão proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT-10), as demissões coletivas planejadas pela companhia foram suspensas judicialmente.

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